SÉRGIO CORTIZO - Mudanças Climáticas e Energia  
 
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MITIGAÇÃO NO 4º RELATÓRIO
A AIE-OCDE
GEOPOLÍTICA
SOBRE O AUTOR

MITIGAÇÃO NO 4º RELATÓRIO

A contribuição do Grupo de Trabalho 3 do IPPC para o 4º Relatório de Avaliação (Publicado em 2007) é uma revisão da literatura sobre mitigação das mudanças climáticas publicada desde 2001. A íntegra deste documento está disponível no site www.ipcc.ch.

Vemos abaixo que as emissões globais antrópicas (causadas pelo ser humano) de gases de efeito estufa (GEE) aumentaram 70% entre 1970 e 2004:

Emissões antrópicas globais dos principais gases de efeito estufa entre 1970 e 2004.

Emissões antrópicas globais dos principais gases de efeito estufa entre 1970 e 2004, em Giga-toneladas (bilhões de toneladas) de CO2-eq por ano. (IPCC, AR4, WG3)

Neste gráfico, as quantidades dos diversos GEE estão medidas em termos da QUANTIDADE EQUIVALENTE DE DIÓXIDO DE CARBONO (o principal GEE), ou seja, a quantidade de CO2 que causaria o mesmo forçamento radiativo a longo prazo (leva-se em conta o tempo que os diferentes gases permanecem na atmosfera).

É claro então que:

Com as correntes políticas de mitigação das mudanças climáticas e práticas de desenvolvimento sustentável, as emissões globais de gases-estufa continuarão a crescer nas próximas décadas. (IPCC, AR4, WG3)

As emissões antrópicas originam-se de diversas atividades econômicas. O gráfico abaixo nos mostra a participação dos principais setores da economia mundial nas emissões globais de gases de efeito estufa em 2004:

Origem das emissões antrópicas de gases de efeito estufa em 2004.

Origem das emissões antrópicas de gases de efeito estufa em 2004. (IPCC, AR4, WG3)

Para que a temperatura do planeta pare de subir, é necessário que as concentrações atmosféricas dos GEE sejam estabilizadas, e:

Para estabilizar as concentrações de gases-estufa na atmosfera, as emissões teriam que atingir um pico e declinar daí em diante. (IPCC, AR4, WG3)

Desde 2001 foram publicados vários CENÁRIOS DE ESTABILIZAÇÃO das concentrações de GEE, e portanto da temperatura. O 4o Relatório do IPCC avaliou cerca de 177 desses cenários, agrupando-os em 6 categorias, de acordo com os valores finais das concentrações e da temperatura após a estabilização:

 
 

 

C

A

T

E

G

O

R

I

A

Forçamento Radiativo

(W/m2)

Concentração final CO2-equivalente de GEE e aerosóis

(ppm)

[2005 = 375 ppm]

Aumento da temperatura global média acima dos níveis pré-industriais (°C) Ano de pico das emissões de CO2 Mudança nas emissões globais de CO2 em 2050 em % das emissões de 2000 Número de cenários avaliados
I 2,5 - 3,0 445 - 490 2,0 - 2,4 2000 - 2015 -85 a -50 6
II 3,0 - 3,5 490 - 535 2,4 - 2,8 2000 - 2020 -60 a -30 18
III 3,5 - 4,0 535 - 590 2,8 - 3,2 2010 - 2030 -30 a +5 21
IV 4,0 - 5,0 590 - 710 3,2 - 4,0 2020 - 2060 +10 a +60 118
V 5,0 - 6,0 710 - 855 4,0 - 4,9 2050 - 2080 +25 a +85 9
VI 6,0 - 7,5 855 - 1130 4,9 - 6,1 2060 - 2090 +90 a +140 5
 
 

 

Podemos ver na tabela acima que a grande maioria das pesquisas sobre mitigação avaliadas no 4o Relatório do IPCC trabalha com cenários de estabilização da categoria IV, ou seja, com aumentos finais da temperatura entre 3,2 e 4,0°C.

No entanto, aumentos da temperatura acima de 2,4°C são reconhecidamente perigosos. A categoria I, que corresponde à faixa "prudente" de perturbação do sistema climático, exige que as emissões parem de crescer até 2015, e que em 2050 elas sejam menos da metade daquelas do ano 2000.

Na tabela acima, o aumento da temperatura após o retorno do sistema climático ao equilíbrio térmico foi calculado com o uso da melhor estimativa atual da sensibilidade climática: 3°C. A incerteza quanto ao valor dessa sensibilidade se reflete na margem de erro da estimativa para a temperatura final após a estabilização:

Aumento da temperatura global média de equilíbrio acima dos níveis pré-industriais para as 6 categorias de cenários de estabilização.

Aumento da temperatura global média de equilíbrio acima dos níveis pré-industriais para as 6 categorias de cenários de estabilização. As faixas coloridas correspondem às categorias e a temperatura final foi estimada usando-se: (i) a melhor estimativa para a sensibilidade climática: 3°C (linha escura central); (ii) o limite superior da margem de erro (probabilidade de 66%) para sensibilidade climática: 4,5°C (linha vermelha superior) e (iii) o limite inferior da margem de erro para sensibilidade climática: 2°C (linha azul inferior). (IPCC, AR4, WG3)

Assim, mesmo uma estabilização das concentrações dos GEE e aerosóis abaixo de 490 ppm de CO2-eq (categoria I) pode acarretar um aumento final da temperatura de quase 4°C.

Quando se fala em estabilização, é bom ter em mente que:

A temperatura global média em equilíbrio é diferente da temperatura global média esperada na época da estabilização das concentrações de gases de efeito estufa em razão da inércia do sistema climático. Para a maioria dos cenários avaliados, a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa ocorre entre 2100 e 2150. (IPCC, AR4, WG3)

O gráfico seguinte compara as trajetórias de emissões de CO2 das 6 diferentes categorias de cenários de estabilização:

Emissões de CO2 das 6 categorias de cenários de estabilização.

Emissões de CO2 das 6 categorias de cenários de estabilização. (IPCC, AR4, WG3)

Mas o IPCC adverte que:

As realimentações entre o ciclo do carbono e a mudança do clima afetam a mitigação necessária para um determinado nível de estabilização da concentração atmosférica de dióxido de carbono. Essas realimentações devem aumentar a fração de emissões antrópicas que permanece na atmosfera à medida que o sistema climático se aquece. Portanto, as reduções de emissões necessárias para que se atinja um determinado nível de estabilização relatado nos estudos de mitigação avaliados aqui podem ser subestimadas. (IPCC, AR4, WG3)

Ou seja, o aumento real da temperatura poderá ser maior do que o previsto em todas as categorias acima.

O 4o Relatório apresenta resumidamente os custos econômicos globais das medidas de mitigação (estimados nos trabalhos avaliados pelo IPCC) em termos da alteração decorrente no PIB mundial de 2030 (curto e médio prazos) e 2050 (longo prazo):

 
 

 

CATEGORIA Nível de estabilização

(ppm CO2-eq)

Redução mediana do PIB (%) Faixa de redução do PIB (%) Redução das taxas anuais de crescimento do PIB (%)
2030 2050 2030 2050 2030 2050
I e II 445 - 535 não disponível < 3 < 5,5 < 0,12 < 0,12
III 535 - 590 0,6 1,3  0,2 a 2,5  ligeiramente negativo a 4 < 0,1 < 0,1
IV 590 - 710 0,2 0,5 -0,6 a 1,2 -1 a 2 < 0,06 < 0,05
 
 

 

A existência de custos econômicos negativos não deixa de ser surpreendente, tendo merecido explicações do IPCC:

Embora a maioria dos modelos mostre quedas no PIB, alguns mostram aumento no PIB porque eles assumem que as linhas-base não são ótimas e as políticas de mitigação melhoram as eficiências de mercado, ou eles assumem que mudanças tecnológicas adicionais podem ser induzidas pelas políticas de mitigação. Exemplos de ineficiências de mercado incluem recursos não empregados, distorções nos impostos e/ou subsídios. (IPCC, AR4, WG3)

Podemos inferir que muitos dos trabalhos avaliados pelo IPCC vêm as medidas de mitigação como verdadeiras revoluções nas estruturas políticas e econômicas de todos os países do mundo, que diminuirão o desemprego e as distorções tributárias!

É claro que nestes trabalhos os "co-benefícios" das políticas de mitigação estão sendo sistematicamente superestimados, e as dificuldades práticas de implementação dessas políticas subestimadas ou mesmo negligenciadas por completo.

Os custos econômicos absurdamente baixos apresentados no 4º Relatório são decorrentes também da pressuposição, nos trabalhos avaliados, de inovações tecnológicas maciças em um futuro próximo:

Estudos que pressupõem a possibilidade da política de mudança climática induzir mais inovação tecnológica também fornecem custos mais baixos. Contudo, isso pode exigir um investimento maior de início para que se obtenham reduções de custos mais adiante. (IPCC, AR4, WG3)


A literatura relevante sugere que políticas e medidas podem induzir inovação tecnológica. Progressos notáveis nos estudos sobre estabilização têm sido obtidos pela aplicação de abordagens baseadas em inovações tecnológicas induzidas; entretanto, questões conceituais permanecem. Nos modelos que adotam essas abordagens, os custos projetados para um dado nível de estabilização são mais baixos; as reduções são maiores em níveis mais baixos de estabilização. (IPCC, AR4, WG3)

É evidente que "questões conceituais permanecem": considerando o resultado das pesquisas científicas sobre geração de energia nas últimas décadas, vemos que não é razoável esperar novas tecnologias energéticas na escala requerida e no prazo disponível.



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