SÉRGIO CORTIZO - Mudanças Climáticas e Energia  
 
O PROBLEMA
O SISTEMA CLIMÁTICO
ENERGIA PRIMÁRIA
NOVAS TECNOLOGIAS
O IPCC-ONU
CONCLUSÕES DO 4º RELATÓRIO
CENÁRIOS DE EMISSÕES
PROJEÇÕES DO 4º RELATÓRIO
MITIGAÇÃO NO 4º RELATÓRIO
A AIE-OCDE
GEOPOLÍTICA
SOBRE O AUTOR

GEOPOLÍTICA

A revolução industrial se iniciou no século XIX com a queima de carvão mineral. Todo o processo de industrialização da Europa e dos EUA ao longo do século XX foi baseado na queima de carvão, petróleo e gás natural. O dióxido de carbono, o principal dos gases-estufa, permanece na atmosfera por séculos. Estima-se que cerca de 1/3 do CO2 emitido ao longo dos últimos 200 anos ainda está concentrado na atmosfera, sendo responsável por boa parte do efeito estufa atual. Existem outras fontes de energia e tecnologias para explorá-las (hidrelétrica, solar, eólica, biocombustíveis), mas todas são mais caras do que os combustíveis fósseis (caso contrário já seriam mais usadas).

Assim, mesmo os países desenvolvidos teriam custos econômicos gigantescos para substituir sua principal fonte de energia primária. Este parece ser o motivo dos sucessivos adiamentos e fracassos de todas as iniciativas diplomáticas visando ao estabelecimento de metas concretas e significativas de redução das emissões globais de gases-estufa.

A situação dos países que estão apenas iniciando seu processo de industrialização é muito mais crítica: abrir mão dos combustíveis fósseis (a fonte mais barata de energia) pode significar praticamente a renúncia ao progresso econômico. A China, por exemplo, tem contribuído para a disparada das emissões globais de gases-estufa nos últimos anos e em breve deve se tornar o maior emissor do mundo: para sustentar seu vertiginoso crescimento econômico, os chineses têm investido pesadamente em usinas termoelétricas movidas a carvão mineral (o pior dos combustíveis fósseis: o que emite mais poluição para cada unidade de energia gerada).

Crescimento da demanda mundial por energia primária entre 1971 e 2003, por região, em milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep). (AIE-2004)

Crescimento da demanda mundial por energia primária entre 1971 e 2003, por região, em milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep). (AIE-2004)

Uma solução "civilizada" para o problema da redução das emissões globais seria um tratado internacional que constituísse um MERCADO INTERNACIONAL DE CARBONO, no qual cotas máximas de emissão de gases-estufa para cada país do mundo ao longo das próximas décadas seriam estabelecidas de comum acordo, permitindo que aqueles que cumpriram suas metas com folga possam vender suas cotas restantes aos países que tiveram dificuldade em cumprir suas obrigações assumidas. (O objetivo desse comércio de cotas de poluição seria reduzir os custos econômicos globais do processo.) Um embrião desse mercado já foi instituído pelo Protocolo de Quioto, mas com metas insuficientes de redução das emissões globais de gases-estufa.

O jogo de forças entre os países ricos e as nações em desenvolvimento tem sido, e provavelmente continuará a ser, um sério obstáculo à assinatura de um tratado internacional nestes moldes: de um lado, os países desenvolvidos têm se eximido de sua responsabilidade histórica pelas concentrações atuais de gases-estufa; do outro, os países pobres parecem não estar dispostos a "pagar a conta" por um problema que não criaram.

É previsível que haja um tipo de aliança entre os países pobres defendendo "responsabilidades diferenciadas" (ou seja: cotas de emissão menores para os ricos) e uma coalizão das nações desenvolvidas defendendo que "todos têm que contribuir" (isto é, cotas desvinculadas das emissões passadas). Provavelmente estes dois blocos não serão tão sólidos e bem definidos como no tempo da Guerra Fria, mas algo da bipolaridade característica daquela época deve voltar à cena.

Na diplomacia internacional, em geral prevalece a força política, econômica e militar das partes envolvidas. Os resultados das negociações dependem, em certa medida, da habilidade e da determinação com que cada parte defende seus interesses. Entretanto, o fator decisivo daqui por diante deve ser mesmo o poder de barganha real dos dois blocos, e a percepção que eles têm desse poder.

Aparentemente os EUA e a Europa consideram que ainda têm capacidade para fazer prevalecer seus interesses. O fim da Guerra Fria popularizou no Ocidente a idéia de que todos os países do mundo caminham inexoravelmente para o modelo político-econômico ocidental: democracia representativa e mercados livres (o "Consenso de Washington", o "Fim da História"). Desse ponto de vista, o Ocidente ainda é a vanguarda do processo histórico e portanto pode impor sua vontade aos outros países.

Mas uma análise objetiva dos fatos econômicos e geopolíticos do final do século XX e início do XXI nos mostra que vem crescendo em todo o mundo uma reação ao poder ocidental. Os árabes têm reafirmado vigorosamente seus próprios valores tradicionais e religiosos, e o crescimento econômico vertiginoso do leste asiático, com destaque para a China, tem desafiado a posição de liderança do Ocidente.

Neste contexto geopolítico, tudo aponta para um impasse diplomático prolongado, como o que estamos vendo na Convenção do Clima da ONU.



  TOPO DESTA PÁGINA  
 
 
HOME:  www.sergio.cortizo.nom.br contato@sergio.cortizo.nom.br