SÉRGIO CORTIZO - Mudanças Climáticas e Energia  
 
O PROBLEMA
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MITIGAÇÃO NO 4º RELATÓRIO
A AIE-OCDE
GEOPOLÍTICA
SOBRE O AUTOR

ENERGIA PRIMÁRIA

Para manter o problema das mudanças climáticas administrável, temos que reduzir urgentemente as emissões de gases-estufa. Mas não será fácil cumprir esta tarefa, pois toda a economia mundial depende hoje, direta ou indiretamente, da energia gerada pela queima dos combustíveis fósseis.

A energia elétrica, por exemplo, não emite GEE (gases de efeito estufa) ao ser utilizada, mas consideremos o modo pelo qual ela foi gerada:

Origem da energia elétrica mundial em 2005. (Agência Internacional de Energia, WEO-2007)

Origem da energia elétrica consumida pela economia mundial em 2005. (Agência Internacional de Energia, WEO-2007)

Dois terços (66,1%) da energia elétrica consumida em todo o mundo provêm da queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural), sendo que quase 40% do total é obtido a partir de carvão mineral, o pior deles em termos de poluição atmosférica (o que gera mais emissões de GEE por unidade de energia produzida).

De forma análoga, praticamente todos os processos econômicos atuais dependem de uma rede de TRANSPORTES terrestres, marítimos e aéreos que é movida a combustível fóssil:

Origem da energia consumida pelo setor de transportes da economia mundial em 2005. (AIE, WEO-2007)

Origem da energia consumida pelo setor de transportes da economia mundial em 2005. (AIE, WEO-2007)

O melhor modo de se quantificar o grau de dependência da economia mundial em relação aos combustíveis fósseis é através do conceito de ENERGIA PRIMÁRIA: a energia que ingressa no sistema econômico mundial, antes de ser transformada ou consumida dentro desse sistema.

Por exemplo: como os carros movidos a hidrogênio não são poluentes (a combustão deste gás produz apenas vapor d'água), às vezes se diz que eles seriam uma alternativa viável aos combustíveis fósseis para o setor de transportes. No entanto, não se está levando em conta nesta afirmação que o hidrogênio combustível não é uma fonte primária de energia: para ser produzido ele necessita de uma fonte de energia externa ao processo.

Em última instância, as fontes primárias de energia conhecidas podem ser agrupadas em três classes:

  • COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS (petróleo, carvão mineral e gás natural);

  • ENERGIA NUCLEAR (fissão e fusão); e

  • ENERGIAS RENOVÁVEIS (biocombustíveis, solar, eólica, geotérmica, oceânica);
A energia nuclear não é considerada renovável porque as reservas mundiais de urânio e tório são limitadas, e estes materiais são a fonte primária da energia de fissão. (Por outro lado, não se trata de combustíveis fósseis.)

As três classes acima participam atualmente na economia mundial na seguinte proporção:

Fontes primárias de energia da economia mundial em 2005. (AIE, WEO-2007)

Fontes primárias de energia da economia mundial em 2005. (AIE, WEO-2007)

O problema das fontes primárias de energia já é preocupante diante da participação atual dos combustíveis fósseis na matriz energética mundial: 81%. No entanto, é a análise do problema no tempo que revela sua real gravidade: de 1971 a 2005 o PIB mundial triplicou, e a demanda mundial por energia dobrou:

Crescimento da demanda mundial por energia primária entre 1971 e 2005, em milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep). (AIE, WEO-2007)

Crescimento da demanda mundial por energia primária entre 1971 e 2005, em milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep). (AIE, WEO-2007)

Assim, para sustentar um crescimento econômico semelhante nas próximas décadas devemos praticamente dobrar a oferta de energia nos próximos 30 anos, mas qual será a fonte primária dessa energia?

Esta fonte alternativa terá que ser limpa, barata, e disponibilizar em 30 anos uma quantidade de energia da ordem de 180% de toda a energia consumida hoje no mundo, a fim de sustentar o atual crescimento econômico do planeta.

Apenas para avaliar a dificuldade dessa tarefa, consideremos rapidamente a contribuição potencial dos biocombustíveis: o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, como fabricado no Brasil, é a melhor opção conhecida em termos econômicos e ambientais. Se os 60 milhões de hectares (600.000 Km2) de terra cultivada hoje no Brasil fossem todos plantados com cana-de-açúcar para produção de álcool combustível, isso geraria energia primária da ordem de 2% do consumo atual do globo.

O gráfico seguinte mostra projeções recentes (nov/2007) da AIE para os mercados mundiais de energia até 2030, baseadas em um sofisticado modelo matemático de simulação do comportamento dos mercados mundiais de energia:

Projeções para o crescimento da energia primária mundial até 2030. (AIE-2007)

Projeções para o crescimento da energia primária mundial até 2030 segundo um cenário de referência (CR) baseado nas políticas correntes; e um cenário de políticas alternativas (CPA) baseado nas medidas de mitigação que estão sendo consideradas. (AIE-2007)

No cenário de referência, a demanda mundial por energia aumentará 55% até 2030. Mesmo no cenário de políticas alternativas os combustíveis fósseis continuarão a dominar amplamente a matriz energética mundial até 2030.

Sem uma fonte de energia primária que sustente o crescimento econômico mundial, vários países que iniciam agora seu processo de desenvolvimento econômico, como a China e a Índia por exemplo, teriam que renunciar à oportunidade atual de industrialização oferecida pela queima de combustíveis fósseis. Temos aqui um foco de tensão geopolítica que pode exceder a coesão e a capacidade de ação das organizações diplomáticas internacionais.

Desde meados do século XX se conhece uma fonte de energia limpa e capaz, em princípio, de suprir a demanda mundial crescente: a FUSÃO NUCLEAR (que não deve ser confundida com a FISSÃO NUCLEAR usada atualmente em todas as usinas nucleares de produção de energia), mas a ciência moderna não tem conseguido controlar a produção dessa energia para fins pacíficos.



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